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Profissional Moderno

Profissional Moderno

01
Set20

Ganhos Marginais e porque são tão importantes

Luís Rito

No meu último artigo, mergulhámos um pouco numa série de características que fazem a equipa de F1 da Mercedes-Benz tão especial. Um dos conceitos abordados no artigo, foi o conceito de ganhos marginais, introduzido de uma forma superficial no texto. Para que possas ter algum contexto nesta leitura, dá uma olhadela no artigo Aprender com a equipa Mercedes de Fórmula 1. Hoje abordaremos de uma forma mais aprofundada o conceito de ganhos marginais, recorrendo a alguns exemplos para ilustrar melhor as suas vantagens. O que são então ganhos marginais? Uma excelente definição, é a capacidade que uma entidade tem de subdividir um grande objetivo em pedaços bem pequenos, e aplicar melhorias a cada um deles, por mais pequenas que sejam. Ao juntar todas essas pequenas melhorias, de todos os pedaços previamente identificados, o incremento será enorme. É muito fácil descartarmos pequenas melhorias por acharmos que não vão ter qualquer tipo de impacto no resultado final. Tendemos a achar que para atingir uma mudança radical são necessárias ações radicais, o que não é a realidade. Seja na perca de peso, acumulação de riqueza, criação de um negócio, etc, o segredo está sempre na consistência com que aplicamos pequenas melhorias no nosso dia-a-dia, na capacidade de partir um grande objetivo em objetivos mais pequenos que podemos seguir e avaliar. De um ponto de vista matemático, se conseguires incrementar algo, nem que seja em 1%, no final de um ano vais ter um ganho muito considerável. Senão vejam, 1,01^365 = 37,78, ou seja, se melhorares 1% todos os dias, vais acabar o ano 37 vezes melhor do que quando iniciaste. Repetindo estes pequenos ganhos marginais ao longo de vários anos, facilmente percebes que é possível chegar a um nível de excelência. Decerto entendes que nem sempre será fácil obter uma melhoria, mas o segredo está em realizar ciclos constantes, dando muita relevância ao feedback. Em cada um destes ciclos é testada uma hipótese de melhoria. Através do fornecimento de feedback, toma-se então a decisão de considerar a hipótese como um sucesso, ou como uma tentativa falhada. Este método de constatação de hipóteses nada mais é que a aplicação de um verdadeiro método científico (observação, realização de perguntas, criação de hipóteses, experimentação de hipóteses, análise e conclusão). Relembro que ainda que uma hipótese resulte num resultado menos positivo, ainda assim o verdadeiro ganho é a capacidade de aprendizagem, já que no próximo ciclo pode-se optar por uma hipótese ligeiramente diferente que poderá vir a dar ganhos fenomenais. Talvez o caso mais conhecido desta corrente de pensamento é o de Thomas Edison. Até obter sucesso na criação da primeira lâmpada, passou por cerca de 700 tentativas falhadas. Chegou a ser questionado pelos seus assistentes sobre se valeria a pena continuar a insistir, já que não tinham avançado um único passo. A resposta foi fenomenal:

 

"Não avançamos um único passo? Avançamos 700 passos na direção do sucesso. Sabemos de 700 coisas que não funcionaram. Estamos muito além de 700 ilusões que mantínhamos no passado e que hoje não nos iludem mais. Ainda chamas a isto perda de tempo?"

 

A constatação das hipóteses deve ser sempre acompanhada por medições muito precisas e fidedignas, já que só assim é possível afirmar que uma hipótese foi ou não um sucesso. Este ónus não pode ficar apenas na opinião de um conjunto de pessoas, mas sim de métricas bem definidas. A opinião das pessoas está normalmente sujeita a um conjunto de variáveis que nada têm que ver com a análise da hipótese. Podem por exemplo entrar em jogo fatores emocionais, ou por exemplo casos em que alguém muda a sua opinião para que se torne similar à opinião dos demais. É por isso que este tipo de decisões deve recair sobretudo na análise de variáveis mais quantitativas. Por exemplo, quando o objetivo de uma pessoa é perder gordura, uma das medidas que utilizamos para medir progresso é um número representado em Kg, o peso. Existem outro tipo de medidas, como a % de massa magra, % de massa gorda, perímetro abdominal, etc. Este tipo de medidas é sempre mais precisa que olhar para um espelho e tentar adivinhar se estamos ou não a fazer progressos.

Recorrendo uma vez mais ao exemplo da Mercedes-Benz e da F1, é comum a equipa utilizar ciclos iterativos de melhoria apenas para otimizar a forma como recolhem e medem os KPI´s que interessam. Isto acontece, pois, estamos a lidar com problemas complexos, portanto a primeira tentativa para os otimizar deverá ser bem longe do ideal. Com recurso a sensores, podem testar as hipóteses e decidir se esta é ou não um sucesso. Acontece que com a primeira iteração são feitas descobertas que não estavam a ser tidas em conta, daí a necessidade de muitas vezes realizarem um novo ciclo apenas para melhorar a forma como recolhem KPI´s e estatísticas. Apenas quando sabem que os KPI´s estão corretos, avançam para o processo propriamente dito de melhoria. Reparem na diferença e no contraste com outras realidades, onde hipóteses são escolhidas por "feeling" e não por evidências. Para que possam ter uma ideia, a Mercedes-Benz chega a colocar cerca de 8 sensores em cada uma das pistolas que removem as porcas que prendem as rodas, para que assim possam otimizar as paragens nas boxes. Apenas ao olhar para os dados (e não a falar com o mecânico que as coloca), é possível obter informação sobre por exemplo, um desvio de 15 graus da posição correta em que se deve introduzir a pistola, quando foi iniciada a sua rotação, a velocidade com que o mecânico se afastou, quanto tempo demorou a colocar um pneu, quando tempo o demorou a aparafusar, etc. Toda esta fonte de dados, alimenta KPI´s que são utilizados para melhorar o tal 1% em cada ciclo de otimização. Esta metodologia aplicada a centenas de pequenas partes de um todo, resulta num efeito composto. Tal como o dinheiro no banco sob o efeito de juros composto tende a crescer de forma exponencial ao longo do tempo (juros dos juros originam ganhos cada vez maiores), as pequenas melhorias de 1% ao longo do tempo vão transformar um indivíduo, uma equipa, uma empresa numa das melhores na sua área de atuação.

 

Marginal Gains

 

O segredo da Fórmula 1 nos dias de hoje não tem que ver com desenvolver algo que seja revolucionário, o segredo é aplicar melhorias em todos os milhares de pequenos items, e otimizá-los a um nível de excelência. As pessoas tendem a pensar que um motor é algo que evolui com base em decisões estratégicas, mas na realidade o que é um motor senão um conjunto de pequenos componentes? O objetivo é começar com um desenho simples e funcional, e através de um processo iterativo chegar a uma solução o mais ideal possível, já que será praticamente impossível atingir a perfeição. O sucesso depende de ter um ciclo iterativo de melhorias enraizado na organização. Realizar melhorias não é algo fácil, é necessária criatividade e muito esforço para obter ganhos de algo que já é muito bom. Olhar para o que os dados nos estão a dizer, para os KPI´s e encontrar soluções para os melhorar exige uma equipa a trabalhar no seu melhor. Criatividade que não é guiada por um mecanismo de feedback não passa de esforço que se dissipa e se perde. Devemos ambicionar falhar mais, porque apenas quando falhamos nos é dada a hipótese de fazer melhor, evoluir. Ganhos marginais são quase invisíveis no curto prazo, melhorar 1% não é lá grande coisa. Mas é no médio e no longo-prazo que essas pequenas melhorias e escolhas começam a separar os que têm sucesso dos que não têm. Bons hábitos devem ser incentivados. Curiosamente, os bons hábitos são difíceis no imediato e trazem grandes benefícios no futuro, enquanto maus hábitos são fáceis no imediato, mas trazem grandes perdas no futuro. É sempre mais difícil seguir uma alimentação cuidada e fazer exercício hoje, já que apenas vamos ver benefícios alguns dias ou meses depois. Por contraste, sentar-me agora a ver televisão e a comer comida prejudicial dá-me uma recompensa imediata, mas castiga-me mais tarde sob a forma de gordura e problemas de saúde.

É fundamental fazer uso desta poderosa forma de estar na vida, e utilizá-la quer dum ponto de vista pessoal como de um ponto de vista profissional. As empresas devem também manter um olho na forma como trabalham, cultivar um ambiente onde não se espera ter tudo perfeito desde o momento zero é fundamental. Fazer uso de ciclos de melhoria deve estar no ADN das suas pessoas. Nem todas elas se vão identificar com esta forma de trabalhar, afinal procurar constantemente a melhoria exige perfis que não se dão bem com a rotina e com o conformismo. É fundamental incorporar mais pessoas com este perfil, para que consigam em conjunto construir uma cultura que possa "contagiar" todos os outros elementos. Parte do segredo das grandes empresas começa na sua cultura, e é por isso que uma empresa deve batalhar. Mudar e evoluir é algo positivo, procurar pequenas melhorias ainda mais, e são essas pequenas melhorias que te vão levar para o próximo nível. O relógio nunca vai parar, o que vais escolher? Ser hoje 1% melhor ou 1% pior?

 

06
Ago20

Aprender com a equipa Mercedes de Fórmula 1

Luís Rito

Sendo um fã incondicional de F1 desde pequeno, não deixo de ficar espantado como a equipa Mercedes tem vindo a dominar o desporto nos últimos anos. Este tipo de domínio não é por acaso, e sendo uma pessoa altamente curiosa sobre como uma empresa se organiza, levou-me a explorar melhor o porquê de uma única equipa ser tão dominante em relação a todas as outras. Para quem não conhece bem o desporto, a Mercedes tem vindo a ganhar campeonatos desde o ano 2014, continuando em 2020 a exercer um domínio claro sobre toda a concorrência. Porque serão tão bons? Terá a ver apenas com os pilotos ou também com a grande equipa que está por detrás? Bom, na F1 onde se luta por milésimos de segundo, considero que tem que existir um misto entre mestria de um piloto e de excelência por parte de toda a equipa. Na fábrica onde são produzidos os carros, toda uma equipa de centenas de pessoas trabalha em sincronia como um relógio suíço. Apesar de toda a forma como trabalham ser um segredo bem guardado, podemos através de alguns excertos identificar a cultura que se vive dentro da equipa. Transcrevo abaixo palavras de Toto Wolf, Team Principal da Mercedes:

 

“It’s about the marginal gains,” said Wolff of their success. “It’s about putting everything together and not leaving one stone unturned, having a no-blame culture, empowering [people], even when it’s difficult sometimes when you would rather control things. I think the strengths go very deep, values that are engrained in the teams that you can’t put on a Powerpoint and say ‘now we are empowered’.”

 

Não posso deixar de falar das primeiras palavras do Toto Wolff, tem tudo a ver com ganhos marginais. Ora, como já referi acima, na F1 luta-se por milésimos de segundo, temos na grande maioria das pistas 2 a 2,5 segundos a separar o carro mais rápido do carro mais lento, são margens muito pequenas. A atenção ao detalhe tem que ser levada a outro nível. É por isso que a equipa tem que investir enormes esforços na perseguição da perfeição, mesmo quando já são os melhores. Fazendo o paralelismo com o mundo da alta cozinha, por exemplo, a diferença entre um restaurante muito bom e outro com várias estrelas Michelin são os detalhes e a procura pela excelência. A quantidade e qualidade das pessoas necessárias para assegurar um restaurante com estrela Michelin tem que ser superior. Em alguns casos chegam a pôr a mesa com uma régua para que a distância entre os talheres seja a mesma em todo o restaurante.

Ora, analisando as palavras do Toto Wolff transcritas acima, e fazendo alguma pesquisa na internet, facilmente percebemos algumas características fantásticas da equipa Mercedes. Faço um resumo de algumas delas que considero serem uma verdadeira vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes.

 

Não são complacentes

 

Uma equipa que ganha desde 2014 e continua a evoluir ano após ano é tudo menos complacente. O foco na melhoria é contínuo, a procura pelos ganhos marginais é constante, principalmente num desporto onde se discutem milésimos de segundo. Tudo conta, desde o mais pequeno pormenor até ao maior. Quando se é o melhor durante vários anos pode-se tender a achar que se é superior, que provavelmente não é necessário trabalhar tanto para obter bons resultados. Com a Mercedes nada poderia estar mais longe da realidade, existe humildade e respeito pela concorrência, o que faz com que não exista desleixe. Apesar de todos os outros não chegarem ao seu nível de performance, a equipa continua a sua jornada constante e interminável pela procura de melhorias. A não complacência e fome de continuar, mesmo depois de se chegar ao topo é uma grande vantagem. Tudo tem que funcionar de forma sincronizada, as equipas que fabricam a unidade motriz (motor) têm que estar alinhadas com a equipa de chassis, com a equipa de aerodinâmica, com as equipas de fabrico, com os próprios pilotos, etc...é um mundo muito complexo. Este tipo de performance é extremamente raro, tanto mais quando estamos a falar de uma empresa composta por centenas de pessoas.

 

Cultura de empowerment

 

Dito pelo próprio Toto Wolff, uma cultura de empowerment é fundamental numa organização de alto desempenho. Em empresas de conhecimento, onde imperam pessoas inteligentes e ambiciosas, aplicar estratégias de microgestão e controlo apertado não funcionam. Esse tipo de estratégias só fará as pessoas retraírem-se em situações onde deveriam estar a colaborar. Numa empresa como a Mercedes não existem umas dezenas de cérebros que decidem tudo, mas sim centenas de cérebros inteligentes que compõem uma espécie de mastermind. Apenas com este tipo de estratégias se consegue que 1+1 seja igual a 3, 4 ou quem sabe mais ainda. Objetivos e valores são muito bem definidos, toda a equipa tem de saber em que direção se está a dirigir. Fechando e alinhando os objetivos, deve-se dar autonomia e liberdade para a equipa os perseguir da forma que achar melhor. Na Mercedes todos sabem o que se espera deles, ganhar os campeonatos de pilotos e de construtores.

 

Mercedes AMG

 

Lealdade da equipa

 

Quando se dá excelentes condições às pessoas, e quando se é o melhor, existem poucos motivos para se querer sair. A equipa Mercedes tem pessoas com elevada lealdade, muitas delas desde o início da própria equipa. Começando pelas excelentes instalações, pela qualidade da comida que servem, pelas bebidas gratuitas, pelo café de qualidade superior, pelo brinde com champanhe para toda a equipa sempre que uma corrida é ganha, nada é deixado ao acaso. A Mercedes chega a enviar as almofadas pessoais dos colaboradores que estão deslocados numa corrida, para que todos descansem convenientemente e estejam prontos para dar o seu melhor. Na fábrica/sede todos os colaboradores têm lugar pra estacionar o carro, para assim evitar que comecem o dia stressados ou chateados. Todos sem exceção, desde os escalões mais baixos até aos mais altos recebem um bónus sempre que a equipa ganha o campeonato de construtores. A equipa percebeu que ter pessoas leais faz aumentar a sua produtividade e empenho, e é por isso que não olha a custos na hora de dar todas as condições às suas equipas.

 

Erros são oportunidades de melhorar

 

Erros são sempre vistos como oportunidades. Existe uma cultura de não-culpabilização. Quando se analisa um erro não é para apontar o dedo a alguém, mas sim para melhorar e garantir que não torna a acontecer. A Mercedes recolhe dados de uma grande variedade de fontes, da telemetria até à performance da equipa numa paragem na box. Várias sessões são realizadas com os engenheiros e pilotos, sempre com o objetivo de corrigir possíveis erros que se possam ter cometido. Fazendo um paralelismo com a indústria aeronáutica, quando começaram a existir aviões a probabilidade de queda era bastante mais alta do que é agora. Por mais horrível que seja, cada avião que caiu contribuiu de forma considerável para a evolução dos processos, materiais, formas de construção, etc. É por isso que hoje em dia, os aviões que caem são tão escassos. É resultado de uma evolução constante ao longo de vários anos. A Mercedes faz uso da mesma estratégia, e é por isso que raramente vemos a equipa a cometer o mesmo erro duas vezes. Sebastian Vettel, piloto da Ferrari, admitiu publicamente que a Mercedes está perto da perfeição, realçando a sua consistência e a quase ausência de erros. Isto apenas é possível com uma vontade enorme de aprender sempre que se erra.

 

Acima listei algumas das características que fazem a equipa de F1 da Mercedes tão fenomenal. A beleza é que todos os pontos podem ser aplicados em qualquer outra empresa. Não digo que seja fácil, a transformação é na grande maioria dos casos difícil. Mas como todos os grandes esforços, deve-se sempre começar pelo ponto lógico, pelo início :). Espero num post futuro conseguir aprofundar mais este tema, nomeadamente como pode uma empresa fazer uso destas e de outras estratégias para se reinventar e elevar-se para o próximo nível.

 

 

19
Jul20

Velocidade organizacional

Luís Rito

Vivemos na era da velocidade. Cada vez mais as empresas necessitam de "fazer coisas" a uma velocidade maior. Em muitos sectores a concorrência ataca de todos os lados, empresas que reagem de forma lenta podem perder oportunidades fantásticas ou na pior das hipóteses falir. Para tornar tudo ainda pior, algumas startups que hoje em dia fazem concorrência às grandes empresas têm a capacidade de se reinventar num período de tempo muito curto. A sua agilidade é vertiginosa e assustadora. Por outro lado, na sua maioria, as empresas gigantes tornam-se lentas e demasiado complexas, uma mudança de direção pode levar vários anos. Normalmente a burocracia apodera-se destas grandes empresas, começamos a ter pessoas demasiado cristalizadas e acomodadas, com muito pouca vontade de incutir mudança, vemos as típicas "quintinhas" defendidas com unhas e dentes pelas suas chefias que há muito tempo colocaram os seus interesses na frente dos interesses da organização. Tudo isto é praticamente nulo nas startups, já que têm poucas pessoas, têm estruturas mais simples e estão normalmente muito focadas nos objetivos de crescimento da empresa. É certo e sabido que quanto mais pessoas tem uma organização mais complexo vai ser realizar o que quer que seja, principalmente quando carece de uma cultura de partilha, de entreajuda e de foco apenas nos objetivos da empresa em prol de objetivos pessoais obscuros. Diria que apenas em situações de crise as pessoas são capazes de se mobilizar e empreender mudança de uma forma muito rápida. A pandemia que atravessamos é uma demonstração viva desta afirmação, empresas foram capazes de se reinventar de uma forma completamente radical numa questão de semanas. Pessoas que nunca se imaginaram a trabalhar de casa ou empresas que nunca acreditaram no que muitos já diziam desde há vários anos, que a produtividade tende a aumentar em teletrabalho, puderam comprovar essa realidade. Segundo um artigo da McKinsey, muitos CEO´s durante esta pandemia experimentaram um grande conjunto de medidas ágeis, conseguindo aumentar a velocidade das suas empresas. Alguns exemplos:

 

"Tomada de decisão acelerou, em situação de crise não nos focamos demasiado nos detalhes, mas sim na execução rápida de uma ideia. Muitos limitaram as reuniões de tomada de decisão a 9 pessoas e baniram o PowerPoint"

"Foco na construção rápida de protótipos em detrimento da busca pela solução perfeita"

"Aumento de canais diretos entre equipas"

"Adoção de novas tecnologias de uma semana para a outra (ao invés de meses ou anos), já que existe uma maior tolerância a erros, desde que não ameacem a continuidade do negócio"

"Criação de equipas multidisciplinares compostas pelas suas melhores pessoas como forma de atacar problemas complexos e difíceis"

 

Se nestas situações de crise já percebemos que a mudança pode acontecer de forma bastante rápida, como o fazer em situação normal? Como cortar os tentáculos da burocracia nas empresas? Como fazer a mudança acontecer de forma mais rápida? Acredito que dois vetores muito importantes são a cultura e a organização. As pessoas que as empresas devem procurar são aquelas que procuram constantemente melhores formas de fazer o seu trabalho, que lidem bem com a responsabilização, que não precisem de muita microgestão, que gostem de estar inseridas em meios onde cometer erros é visto como uma forma de evoluir, de aumentar a excelência. Este tipo de pessoas normalmente sente-se bem a trabalhar com pessoas que partilhem os mesmos princípios, pelo que uma das áreas mais importantes hoje em dia em qualquer empresa são os RH. A contratação de novo talento não deve ser levada de forma leviana, já que a incorporação de alguém que não se identifique com este tipo de cultura nunca vai dar resultado, podendo até "contagiar" negativamente algumas das pessoas que já lá trabalham. A nível de organização, profissionais de alto-rendimento tendem a gostar mais de velocidade, tomada rápida de decisão, estruturas mais planas e chefias que não adotem uma postura de comand & control. Vou-me focar nestes pontos e explicá-los um pouco melhor, apesar de parecerem na sua essência bastante simples, existe muita resistência na sua implementação na grande maioria das empresas.

 

Velocidade

 

Aumentar a velocidade de tomada de decisão

 

Na prática, muitos dos tempos de espera que hoje presenciamos nas empresas estão relacionados com processos de tomada de decisão muito lentos. Uma forma eficaz de reduzir este tempo de espera passa por realizar menos reuniões de tomada de decisão (foco máximo em fechar temas com uma iteração ao invés de várias) e que o número de decisores seja mais reduzido. Muitas empresas falam num máximo de 9 decisores ao invés de dezenas. Devemos evitar ao máximo estar numa reunião a decidir que temos que marcar outra reunião para avançar com o tema. Uma técnica que tem sido também utilizada passa por banir apresentações de PowerPoint (ou similares), e sempre que seja possível substituí-las por documentos de briefing que são lidos em silêncio no início das reuniões, como um documento de texto ou uma folha de cálculo. O CEO da Amazon Jeff Bezos baniu as apresentações da empresa, e afirma ter sido uma das decisões mais inteligentes que tomou. As apresentações obrigam a pessoa que prepara a reunião a despender muito tempo na sua realização (o que em alguns casos se pode chamar de desperdício de tempo), e trazem algumas desvantagens para quem está a assistir, como por exemplo:

 

1. Com apresentações, a informação é partilhada na velocidade em que a pessoa faz o seu discurso (muitas vezes com informação não relevante). Com documentos de briefing a informação é partilhada à velocidade que as pessoas leem. 

2. Um documento de briefing partilha a informação com todos no início da reunião, evitando perguntas que surgem nas apresentações e que muitas vezes poderão estar endereçadas em slides mais à frente. 

3. Evita-se algumas das coisas mais chatas das apresentações, como por exemplo informação não relevante, oradores com tons de voz monocórdicos e aborrecidos, ou casos em que se leva muito tempo a chegar ao ponto chave da reunião.

 

Não estou com isto a dizer que devemos acabar com todas e quaisquer apresentações, até porque para alguns casos continua a ser o mais eficaz, como por exemplo para apresentações a clientes ou à gestão da empresa. Devem sim ser ponderadas todas as reuniões para que se entenda se são ou não necessárias, ou se, em alternativa, um documento de briefing é suficiente (em reuniões mais táticas & operacionais deveria ser o suficiente).

 

Criação de uma estrutura mais plana

 

Uma empresa rápida e ágil tem mais pessoas a executar e menos pessoas a alimentar a burocracia. Estruturas rígidas têm normalmente muitas reuniões pouco produtivas, existe muita gestão de egos & expectativas, reporting excessivo, etc. Neste tipo de estruturas excessivamente hierarquizadas, a tomada de decisão é lenta e a reação a oportunidades normalmente baixa. É por isso que as empresas devem ter a capacidade de se reinventar, procurar estruturas mais planas, onde existem mais pessoas a executar e a efetuar tomada de decisão. O número de gestores intermédios deve também ser amplamente reduzido, e substituído por uma rede de equipas multidisciplinares, como um organismo vivo que se adapta e evolui. É nesta fase que se percebe a importância das pessoas que se tem a bordo, pois devem ser muito autónomas e devem conviver bem com serem elas a tomar muitas das decisões do dia-a-dia. As equipas multidisciplinares removem dependências que muitas vezes existem entre equipas diferentes e que causam lentidão nos processos. Por exemplo, ao realizar um desenvolvimento informático, normalmente este é transferido para uma equipa de testes e correndo tudo bem para outra equipa que irá realizar o roll-out em produção. Se uma equipa multidisciplinar estiver focada numa determinada área de negócio ou aplicação, pode conter uma pessoa de desenvolvimento, uma de testes e uma de operações IT, removendo todas as dependências que existiam antes. Passa a ser uma prioridade de toda a equipa, ao invés de lidarmos com 3 equipas com 3 prioridades diferentes.

A colaboração em tempo real deve também ser a norma, devemos abandonar gradualmente o uso de emails já que nos esgota horas e horas do nosso dia. Por vezes vejo o email como algo já crónico em muitas empresas, onde temos pessoas aprisionadas no seu envio & resposta, causando níveis de produtividade muito baixos. Deve ser cultivada a máxima, se é urgente não me envies email porque só o vejo uma ou duas vezes por dia. Em alternativa, utiliza o telemóvel, chat ou videochamada. Podem também ser criados centros de excelência dentro da empresa, compostos por uma ou mais equipas multidisciplinares. Alguns exemplos de centros de excelência podem ser, Agilidade & Metodologia de trabalho, BI, Inteligência Artificial, etc. A ideia é ligar um grupo de pessoas que partilham os mesmos gostos e procurar continuamente inovações ou formas mais eficazes de fazer as coisas.

 

Deixo-te abaixo um vídeo da Apple muito elucidativo de uma equipa multidisciplinar a trabalhar em pleno, apesar das dificuldades :)

 

 

Repensar e reinventar o papel dos líderes

 

Se o objetivo é ter estruturas mais planas, qual deve então ser o papel do líder dentro da organização? Bom, em primeiro lugar deve abandonar as abordagens de Command & Control, é algo que não funciona bem em empresas de conhecimento. O papel dos líderes deve ser definir a direção, energizar as equipas, desbloquear problemas, fazer crescer as pessoas e garantir que existe confiança entre todas as partes. O grande papel de um líder é criar equipas vencedoras, ou como alguns dizem, o dia em que este se poder ausentar e as suas equipas continuarem a trabalhar a 100% significa que está a fazer um trabalho fenomenal. O líder não pode ter medo de ter dúvidas e de não saber tudo, não pode ter medo de contratar pessoas mais inteligentes que ele, pois significa que detém humildade para se necessário, mudar a sua opinião e procurar continuamente mais conhecimento. Na minha opinião, as funções de liderança devem ser asseguradas por especialistas em pessoas e comportamento humano, devem também ser mais desempenhadas por visionários e menos por comandantes. Após partilhada a visão com todas as equipas, o líder deve deixar as pessoas das suas equipas definir como chegar lá, evitando ao máximo práticas de microgestão, pois é algo que profissionais de alto-rendimento odeiam e que os pode fazer sair da empresa.

 

A velocidade é nos dias de hoje algo fundamental, não se trata apenas de uma mais-valia, é algo obrigatório. As empresas devem ter a capacidade de se reinventar, de procurar novas e melhores formas de atingir os seus objetivos, mesmo que isso implique causar muita disrupção ao que é o seu dia-a-dia atual. É necessária coragem da gestão de topo para empreender em revoluções a nível de organização, mas os resultados podem ser bastante benéficos garantindo a sua continuidade no tecido empresarial.

 

 

28
Jun20

Desde quando nos tornámos tão superficiais?

Luís Rito

Liberdade, uma palavra que nas sociedades mais modernas e evoluídas fomos aprendendo a esquecer. Para a grande maioria de nós Portugueses, é algo que tomamos como garantido, como respirar ou como a nossa saúde, algo que só nos lembramos e valorizamos quando o perdemos. Hoje podemos falar e opinar sobre tudo aquilo que nos apetece, sentimo-nos no direito de poder fazer toda uma série de ações (certas ou erradas) e criticamos comportamentos que as massas consideram moralmente errados. Não pretendo mergulhar muito nesta palavra, mas a liberdade é algo que ao longo dos anos fomos conquistando, para agora estarmos reféns de toda uma nova variedade de comportamentos que não conseguimos controlar. Hoje em dia, a grande maioria das pessoas vive uma liberdade artificial, já que continua presa a uma sociedade que impõe certos tipos de comportamentos e certos tipos de ações. Continuamos a viver numa sociedade onde os mais novos aprendem nas escolas a pertencerem a um padrão, a serem mais uma bolacha que sai de uma forma pré-fabricada. O sistema de ensino não evoluiu, continuamos todos a ser avaliados de acordo com um padrão que consideramos ideal, é quase como se pedíssemos a um elefante, a um macaco, a uma baleia e a uma girafa que subam a uma árvore, e o primeiro a consegui-lo tem a nota mais alta. Somos encorajados a "não ser diferentes", sob pena de sermos criticados. Quando crescemos existe uma pressão imensurável para encontramos um bom emprego, casar, constituir família, comprar uma casa, um carro e trabalhar até estarmos velhos e cansados. Pessoas que seguem caminhos diferentes são muitas vezes olhadas como "agitadores", verdadeiros outliers. Também somos fortemente encorajados a consumir, afinal existe todo um mundo assente no capitalismo que tem que sobreviver. Assim, fazemos uso de fantásticos instrumentos chamados créditos para nos endividarmos, tendo que trabalhar cada vez mais para manter todo um estilo de vida utilizado para impressionar a sociedade. Onde está a liberdade? 

 

Passamos horas a assistir a vidas falsas nos Facebooks & Instagrams, e começamos a achar que a nossa vida é uma seca comparada com a vida de todos os outros que estão a publicar mil e uma fotografias, sempre felizes e de bem com a vida. Cada vez mais horas do dia são utilizadas a olhar para aquele pequeno ecrã que temos nos nossos telemóveis. Estes objetos tornaram-se já uma extensão de nós próprios, uma grande percentagem de pessoas deve interagir mais horas com o seu telemóvel do que com pessoas de carne e osso, como a sua família por exemplo. Quando vamos a um concerto, tendemos a gravar as melhores partes, e acabamos por ver os espetáculos por um ecrã quando estamos lá ao vivo e a cores. Famílias vão almoçar ou jantar fora apenas para estarem a publicar conteúdos, a ver o que se passa noutros sítios que não aquele em que se encontram e assim evitarem falar uns com os outros. Estamos tão presos à tecnologia que parece que deixámos de apreciar aqueles momentos simples e deliciosos, como observar uma paisagem, utilizar todos os nossos sentidos, observar as cores, sentir o cheiro da natureza ou o vento a bater na nossa cara. Gostamos que pensem que estamos sempre a mil à hora, sempre atarefados, sempre com algo para fazer, afinal, parar é morrer certo? Não existe tempo para estarmos aborrecidos, temos sempre uma infinidade de conteúdo na internet para consumir, e a beleza disto tudo é que nunca se esgota. Orgulhamo-nos de trabalhar muito, de dormir pouco, e de estar sempre em movimento. A vida passou a ser vivida a mil à hora, as crianças conseguem estar a consumir conteúdos digitais em dois ou três dispositivos em simultâneo. Atrás de um vídeo vem sempre outro, algo que nos obriga a estar focados 1 minuto é uma eternidade neste mundo de consumo rápido. A superficialidade é a nova doença das civilizações modernas. Somos como um rio que tem uma largura enorme, mas que não tem profundidade. Onde está a liberdade? 

 

Natureza

 

Acredito que é quando tentamos ir mais fundo, quando tentamos atingir uma determinada profundidade, que encontramos a nossa verdadeira essência e talvez a nossa felicidade. Quase tudo hoje em dia é superficial e descartável, até mesmo as relações entre as pessoas. Temos demasiado conhecimento sobre toda uma panóplia de coisas, mas poucos aprofundam um ou dois temas específicos, já que isso envolve um grande investimento a nível de tempo e esforço, e numa sociedade de constantes distrações e baixa concentração é muito mais fácil saltar de tema em tema, ficar na superfície, esquecemo-nos que é em águas profundas que se colhem os maiores benefícios.

Porque não ligamos mais aos pequenos momentos? Urge deixarmos de estar tão atarefados, pararmos para viver com mais calma. De certa forma, a pandemia que o mundo enfrenta em 2020 foi quase como um botão de reset para muitas pessoas. De um momento para o outro vemo-nos confinados em casa, muitos ficam em situações de layoff, e, portanto, com muito tempo livre para matar. De repente somos obrigados a abrandar e a abraçar a monotonia. Começamos a valorizar imensas coisas que tínhamos como garantidas, uma simples ida à rua para passear o animal de estimação ou levar o lixo passa a ser um dos momentos altos do dia.

Por outro lado, acredito que o confinamento tenha agravado a nossa dependência tecnológica. Chegámos ao ponto de precisar de tecnologia para nos protegermos dela própria, como cofres com temporizadores onde se guarda o telemóvel para evitar tocar-lhe, ou aplicações que nos incentivam a ser mais produtivos e a reduzir a dependência das redes sociais, YouTubes, Netflixes e afins. Pessoalmente, acredito que a tecnologia é fantástica, ajuda-nos de formas que os nossos antepassados nem podiam sonhar, ajuda-nos a estar em contacto com pessoas que nos são queridas mas que estão longe, dá-nos o poder de aprender sobre virtualmente qualquer tema que nos interesse, monitoriza a nossa saúde, traça-nos caminhos para nunca nos perdermos, permite-nos fazer pagamentos sem utilizar dinheiro físico e permite-nos fazer compras sem sair de casa. Os benefícios são enormes, eu próprio sou um entusiasta de tecnologia. Mas existe um grande elefante no meio da sala, todos nós somos humanos, e tendemos a ficar altamente viciados em atividades que nos deem prazer ou que façam com que o nosso cérebro gaste menos energia. Usar a cabeça de repente tornou-se cansativo, não existe necessidade de memorizar nada, afinal temos tudo à distância de um clique. Se temos uma dúvida, utilizamos o nosso smartphone e já está. Passamos agora uma percentagem muito alta do nosso dia a olhar para um ecrã, e isso é um grande problema.

Na minha modesta opinião (que vale tanto como qualquer outra), temos que reduzir o consumo de conteúdos virtuais, aproveitar mais o que a vida tem para nos oferecer. Sair para a natureza, fazer caminhadas, respirar ar puro, ir jantar com amigos, falar, discutir assuntos intelectualmente desafiantes, pousar os telemóveis e interagir com pessoas cara a cara. Ler um livro, daqueles com vários anos, onde conseguimos sentir o cheiro das páginas velhas e gastas, daqueles que nos põem a pensar e que são desafiantes. Fazer exercício físico, comer uma boa refeição sem comida processada, ir ao teatro ou ao cinema, assistir a um espetáculo de música ao vivo, fazer uma viagem, de preferência para um sítio onde não se tenha rede de telemóvel. No final do dia, tentar desacelerar e viver com menos stress. Cabe a cada um de nós lutar novamente pela nossa liberdade, deixarmos de ser reféns de aplicações onde se mede o sucesso pelo número de likes e viver cada momento com o máximo de intensidade, no mundo real.

 

14
Jun20

Porque é que muito WIP vai matar o teu departamento de IT?

Luís Rito

WIP é um acrónimo que significa "Work in Progress" ou "Work in Process", e basicamente representa trabalho que se encontra a ser executado dentro de um determinado sistema. Este acrónimo é bastante conhecido junto da comunidade Lean, sendo muito utilizado em processos de produção fabril, como por exemplo na montagem de um automóvel, desde o momento em que entra na linha de montagem até ao momento em que sai. Apesar do sucesso que as práticas Lean têm tido nesse tipo de ambientes, junto de processos onde o trabalho é considerado mais invisível, como por exemplo, num departamento de IT, a sua utilização não tem sido adotada. Os argumentos variam, alguns afirmam que não se pode comparar trabalho altamente especializado e complexo como por exemplo desenvolvimento de software com a montagem de um automóvel. Contudo, quanto mais leio e investigo sobre o assunto mais similaridades encontro. Na linha de montagem de um automóvel, existem várias estações de trabalho, por exemplo, montagem de motor, montagem de componentes elétricos, pintura, etc. O automóvel, o qual vou passar a chamar unidade de trabalho, desloca-se desde o início do processo até ao seu final, saltando de estação de trabalho em estação de trabalho, até chegar finalmente ao final do processo e ser considerado pronto. Cada estação de trabalho tem um número máximo de unidades de trabalho que pode aceitar, e durante por exemplo 8h, passam pelo processo várias unidades de trabalho (automóveis). Isto significa que a data altura, se parássemos o sistema, teríamos x automóveis dentro do sistema, chegando assim ao nosso WIP. Todo o sistema é continuamente otimizado, e atividades que permitam melhorá-lo são rapidamente implementadas pelos seus trabalhadores. Em sistemas deste género, é também fácil perceber que não podemos aumentar o WIP sem antes realizarmos otimizações ao nosso processo. Por exemplo, se apenas temos uma câmara de pintura, então não podemos pintar dois automóveis ao mesmo tempo, estando o WIP nessa estação de trabalho limitado a 1 unidade.

 

Ora, se olharmos com atenção para um departamento de IT, mais concretamente uma equipa de desenvolvimento, encontramos muitas similaridades. De forma análoga ao que acontece com a linha de montagem, no desenvolvimento de determinada funcionalidade de software (para facilitar, chamada também unidade de trabalho), também se devem seguir determinados passos até que esta seja considerada concluída. Em organizações com hierarquias mais tradicionais, não existe o conceito de equipas multidisciplinares, logo uma unidade de trabalho tem que saltar de estação de trabalho em estação de trabalho, tal como acontece na linha de montagem. Estas estações de trabalho podem ser por exemplo, análise funcional, desenvolvimento da solução, testes de integração e de utilizador, deployment, acompanhamento ou service desk, entre outras que não coloco para não tornar o exemplo demasiado complexo. Em determinada altura, cada uma destas estações de trabalho tem um WIP específico, muitas vezes a tender para infinito, já que não existe qualquer bloqueio ao nível de trabalho em curso. Como o tipo de trabalho acaba por ser mais invisível, é possível cada estação de trabalho ter um número incrivelmente alto de temas em curso, e outro tanto em espera para ser iniciado. Ou seja, seria o equivalente a termos uma câmara de pintura e 10 automóveis em espera para serem pintados, não faz sentido.

Em IT, existirem inúmeras unidades em curso em cada uma das estações de trabalho leva a atrasos cada vez maiores. Está mais que provado que o multitasking não funciona, ter inúmeros temas em curso significa que nenhum deles será realizado com velocidade, e pior, fará com que unidades que venham de outras estações de trabalho fiquem muito tempo em espera até serem realmente realizadas. O segredo para que isto não aconteça é não incluir trabalho no sistema até ele rebentar. Uma linha de montagem de automóveis tem um limite, e de forma similar, as equipas de IT têm igualmente um limite de pedidos que conseguem realizar. Se assim é, porque continuam as empresas a inserir mais unidades de trabalho num sistema que já está a rebentar pelas costuras? Cada estação de trabalho tem um número de pessoas, com uma capacidade finita para realizar pedidos. Por exemplo, se tens uma equipa de 4 pessoas numa estação de trabalho, e se definires que cada uma delas pode laborar em simultâneo em 2 temas, então a tua capacidade de unidades máxima que deves aceitar nessa estação de trabalho é de 8 e não mais que isso. Ou seja, para adicionar mais 1 unidade, esta estação deve retirar do seu WIP igualmente 1 unidade.

 

Kanban Board

Nota: E como podes controlar o WIP no teu processo? Os quadros Kanban são ótimos aliados, através deles é possível saber a dada altura qual o WIP em cada estação de trabalho e consequentemente qual o WIP total do processo. Noutro artigo prometo falar-te mais dos quadros Kanban.

 

Todos sabemos o quão difícil é gerir um departamento de IT, existe constantemente trabalho "urgente" e não planeado que aparece no caminho. O maior desafio passa por escolher muito bem o trabalho que é realizado, distinguir o que são urgências verdadeiras de urgências sem fundamento. É que muitas vezes essas urgências servem apenas para beneficiar uma área, ou pior, uma pessoa específica (portanto para essa pessoa é a atividade mais urgente que a empresa tem para fazer). O trabalho não planeado é o verdadeiro cancro de um departamento de IT. Quando uma equipa passa todo o tempo a combater incêndios, sobra muito pouco tempo e energia para planear e para pensar. Ao estar constantemente a reagir não existe energia para fazer o trabalho mental difícil de escolher muito bem o que se deve ou não aceitar. A consequência disto é que mais trabalho entra no sistema, o que significa mais multitasking, mais trabalho "feito à pressa", mais atalhos e mais débito técnico. É uma bola de neve e uma espiral descendente. Fazendo a analogia com uma autoestrada, se a sua capacidade estiver perto dos 100%, existe um engarrafamento gigante, e consequentemente, ninguém anda 1 metro que seja. Se a capacidade estiver um pouco mais baixa, o trânsito fluirá com maior facilidade. Se a capacidade das equipas está perto dos 100%, todo o sistema terminará unidades de trabalho a um ritmo quase nulo.

A melhor forma de exemplificar este conceito é com uma fórmula bastante simples:

 

Wait Time = % Busy / % Idle

 

O que esta fórmula significa? Se a % de tempo de ocupação de determinada estação de trabalho é igual a 50%, então a % de tempo disponível é igualmente de 50%. Dividindo uma pela outra obtemos 1, por motivos de exercício poderemos considerar 1 hora de tempo de espera.

Se a % de tempo de ocupação de uma estação de trabalho é igual a 90%, então a % de tempo disponível é de 10%, logo o tempo de espera é igual a 9 (9 vezes mais tempo que no exemplo que dei acima).

Agora vem a parte interessante, se a ocupação de uma estação de trabalho é igual a 99%, significa que a % de tempo disponível é de 1%, logo o tempo de espera é igual a 99 (99 vezes mais que o primeiro exemplo que te dei).

 

Na prática, isto significa que quando menos % de capacidade disponível a estação de trabalho tiver, mais tempo as unidades de trabalho ficam em espera até serem realizadas. Isto é tão mais grave quanto maior a quantidade de estações de trabalho que uma unidade deve percorrer até ser dada como concluída. A título de exemplo, se o sistema fosse composto por 3 estações de trabalho, todas elas a trabalhar a uma capacidade de 99%, cada unidade de trabalho teria de esperar 99h em cada uma delas até ser concluída, ou seja, 297h! Não admira que digam que o departamento de IT leva 6 meses a entregar um desenvolvimento. Deve ser reservada capacidade das equipas para trabalho não planeado e para pensarem em melhores formas de otimizar o processo. Trabalho com a finalidade de melhorar o processo como um todo é tão ou mais importante que o trabalho atual. A capacidade de as equipas introduzirem melhoria contínua nos seus processos e nas suas formas de trabalhar permitirá reduzir muitas dores de cabeça no futuro. Por exemplo, se em 75% das vezes obtemos bugs em desenvolvimentos de determinada funcionalidade porque o código está complexo e não estruturado, então deve ser reservado tempo para o melhorar, esperando com esta ação reduzir a percentagem de bugs, permitindo que a equipa ganhe ainda mais tempo no futuro. Isto não é teoria, é a realidade, equipas com esta capacidade de se melhorar têm maiores hipóteses de se tornar numa equipa de alto rendimento. No espectro contrário, equipas em que não exista melhoria, rapidamente vão tornar-se obsoletas por efeito da entropia. Dou um exemplo muito simples, um cubo de gelo num copo com água. Com o tempo a entropia aumenta, e o calor faz com que o gelo fique mais desordenado e consequentemente líquido. Para que o gelo possa manter-se no estado sólido será necessário fornecer mais energia para que ele mantenha a sua temperatura, caso contrário e devido à entropia este irá ser transformado em água. O mesmo acontece nas organizações e nas equipas. Deve ser aplicada mais energia ao sistema para que este se mantenha em pleno funcionamento, caso contrário a entropia encarregar-se-á de o transformar em algo caótico e desordenado. É aí que entra a melhoria contínua, é a energia que uma organização/equipa necessita para se manter forte.

Em jeito de conclusão, é fundamental que os departamentos de IT saibam escolher muito bem o trabalho que têm que realizar, sempre alinhado com o que são para a empresa os seus objetivos estratégicos. É fundamental que reduzam o seu WIP, deixando margem para outras atividades como melhoria contínua e otimização de todo o sistema, e é fundamental que se deixe de pensar em ter os recursos o mais ocupados possível, pois isso irá diminuir o fluxo de todo o processo.

 

Qual a tua opinião?

 

 

07
Jun20

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Luís Rito

Tira um curso, encontra uma boa empresa, trabalha com esforço e dedicação e vais subir na sua hierarquia, se possível mantêm-te lá até te reformares. Para quem como eu nasceu na década de 80 (ou menos) este era um conselho de muito valor oferecido a custo zero pelos nossos pais. O Santo Graal era entrar numa empresa o mais estável e sólida possível, uma empresa que conseguisse assegurar aos seus colaboradores uma segurança que muitas das pequenas empresas não conseguiam. Após entrar, basicamente tudo se resumia a trabalhar muito, não levantar muitas ondas, e esperar as tão aguardadas promoções. O sucesso na vida, e consequentemente a nossa felicidade era medido pelo trabalho que se tinha e pela progressão que se alcançara. Hoje em pleno século XXI, arrisco dizer que as coisas mudaram radicalmente.

 

Decerto já repararam que as pessoas mais jovens ambicionam um estilo de vida bem diferente dos seus pais. No exemplo que te dei acima, o emprego para a vida permite que as pessoas tenham um estilo de vida mais consumista, ou seja, existe um salário que entra todos os meses e que permite que se tenha dinheiro para uma casa ou um carro (bem como para todo um conjunto de coisas). Quer se queira quer não, quem se considera seguro no seu trabalho acaba por adaptar o seu estilo de vida ao seu salário, ativando toda uma veia consumista bem presente em vários milhões de pessoas. Acredito que as coisas estão a mudar, as pessoas mais novas não ambicionam a casa grande ou o carro brilhante e bonito. Diria que os objetos mais desejados pelas novas gerações são um excelente smartphone ou um excelente laptop ou tablet que lhes permita estar ligados ao mundo. A felicidade já não se mede pelos bens materiais, mas sim pelas experiências que se vivem. O automóvel passou a ser encarado como um custo e como um bem não essencial. Na geração do uber, das trotinetes elétricas, do car sharing fará sentido continuarmos a ter este gasto enorme nas nossas vidas? Para além de termos que pagá-lo, existe todo um conjunto de gastos como manutenção, seguro e selo. Se fizeres contas ao tempo que passas a conduzir, se calhar em 24h conduzes 1h30 ou 2h, o resto do tempo tens o teu automóvel parado. É exatamente por isso que novas gerações preferem não ter um gasto desta magnitude nas suas vidas. O mesmo acontece para as casas, estas devem ser práticas e mais pequenas. Do que adianta ter uma casa enorme se depois vais acabar por estar 99% do tempo nas mesmas divisões? A ostentação de luxo foi substituída pela praticabilidade. 

 

Digital nomad

 

A própria carreira mudou, e penso que no futuro se vai alterar ainda mais. Estudar durante anos para obter uma competência em determinada área e praticá-la durante 40 anos já não é a tendência. A tendência é ganhar competências em várias áreas, e ir experimentando até se encontrar aquilo que nos apaixona. Passamos demasiadas horas da nossa vida a trabalhar para nos darmos ao luxo de fazermos algo que não gostamos. Isso conduz a infelicidade, e infelicidade conduz a um aumento do consumo em coisas que não precisamos (para nos sentirmos um pouco melhor). O foco agora é aprender continuamente, estudar durante toda a vida, procurar novas experiências. A própria reforma acredito que vá ser bem diferente, onde antes se aproveitava a reforma para basicamente "não fazer nada", diria que no futuro a tendência será continuarmos a trabalhar naquilo que nos deixa felizes.

Acredito que neste momento as pessoas podem ambicionar a viver de acordo com o seguinte ciclo:

 

1. Estudar sobre um tema/área que nos apaixone;

2. Conseguir emprego nessa área e entregar valor;

3. Trabalhar nessa área enquanto isso te mantiver feliz e realizado;

4. Parar e descansar. Refletir sobre a experiência;

5. Identificar novos conhecimentos ou temas que queres perseguir e começar novamente do ponto 1.

 

Ora, o ponto 1 e o ponto 2, é onde todos nós, bem ou mal vamos chegar sem grande problema. O segredo está nos restantes pontos. Ter a capacidade de sair de um emprego que não te deixa feliz é um passo de grande coragem, mas é um passo que apenas tu podes tomar. Diria que se chegas ao final de cada domingo, com uma sensação de mau estar e com muito pouca vontade de trabalhar no dia seguinte, então está na hora de experimentares algo novo.

Relativamente ao ponto 4, e para que possas desfrutar em pleno deste, necessitas de ter uma mentalidade minimalista e pouco consumista, ou seja, durante o período em que te encontras a entregar valor (ponto 3), deves poupar uma boa quantia de dinheiro, que te permita viver o ponto 4 em pleno e com tranquilidade. É aqui que deves parar, recarregar energias, ganhar fôlego e pensar no próximo passo que queres dar. Normalmente estamos tão absorvidos no nosso dia-a-dia que acabamos por não ter tempo para pensar se o rumo que estamos a tomar é ou não o mais correto. E convém dizer que 20 e poucos dias de férias por ano é manifestamente pouco para poderes descansar.

As novas gerações também querem flexibilidade, quem disse que o correto é trabalhar das 9h às 18h? Se sou ultra produtivo no período das 7h às 9h porque não o posso fazer e sair por volta das 16h? O mesmo vale para pessoas que são muito produtivas durante a noite. Logicamente que nem todos os tipos de trabalho permitem uma flexibilidade destas, mas diria que uma grande percentagem deles, que envolvem conhecimento e criatividade têm todas as possibilidades para o fazer.

Finalmente, aproveita a pausa referida no ponto 4 para começares a realizar o ponto 5, e consequentemente voltares ao 1. Este ciclo vai dar-te conhecimento sobre um grande conjunto de temas, o que te vai transformar num profissional mais completo e espero eu, mais realizado e concretizado. Os custos com educação vão ser mais elevados, mas também mais espaçados no tempo. Isso é algo que também já está a mudar. Os cursos universitários e MBA´s de 50k€ provavelmente vão perder cada vez mais relevância. São valores incrivelmente altos a pagar por educação num tão curto espaço de tempo. Não será preferível investir os 50k€ ao longo da vida em cursos diferentes e que se adaptem mais ao que pretendes em determinada fase da tua vida? Ao perseguires novos interesses, acredito também que vais conseguir viver uma vida mais gratificante e com mais felicidade.

 

E tu? Com o que te identificas? Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

 

 

17
Mai20

Poderá o futuro passar por equipas cada vez mais remotas?

Luís Rito

O mundo está a mudar. É algo que tem vindo a ser constante ao longo dos anos, mas especialmente desde há uns meses para cá. O estado atual de pandemia tem vindo a acelerar temas que antes se pensavam ser impossíveis ou muito difíceis. Hoje falamos de um em específico, o trabalho remoto. Em muitos países o trabalho remoto é já uma realidade há vários anos. Aqui em Portugal tem vindo a ganhar o seu terreno, mas ainda de uma forma muito tímida. A realidade é que a cultura do nosso país incentiva e premeia os profissionais que dão o "extra mile", ou seja, quem fica a trabalhar até tarde. Este ponto é tanto mais válido quanto as chefias exibam o mesmo comportamento. Com base nisto, será correto pensar que quem prefere realizar trabalho remoto, ainda que a empresa o permita, poderá ter menos possibilidades de obter progressos na sua carreira. Estando longe da visão da sua chefia, a probabilidade é que os que estão mais perto conseguirão construir laços de confiança de uma forma mais célere, e infelizmente na grande maioria das empresas não é o mérito que trará promoções. Em realidades onde a cultura é mais madura, existem muitas vezes objetivos muito claros e KPI´s definidos que representam o trabalho das equipas. Assim, são os colaboradores que obtém os melhores resultados que vão receber mais prémios e consequentemente mais promoções, estando ou não a trabalhar no escritório ou numa esplanada. Contudo, arrisco-me a dizer que a esmagadora maioria das empresas não está neste estágio, tornando até há pouco tempo o trabalho remoto um sonho inalcançável de muitos colaboradores.

 

Tudo isto até aparecer algo chamado Covid19 e virar do avesso a vida das pessoas e das empresas. O que era impossível tornou-se possível em poucos meses. Várias empresas em Portugal e no mundo que não sabiam o que era trabalhar remotamente encontram-se a trabalhar desta forma desde há uns meses. E a parte importante é que o estão a fazer muito bem. Falando por experiência própria, nunca como agora as reuniões começaram de forma tão pontual, tenho assistido a uma adaptação fantástica de todas as pessoas com quem tenho interagido, provando uma vez mais que as empresas são estruturas e sistemas complexos adaptativos. A capacidade de adaptação das empresas depende, claro está, das pessoas que fazem parte desta, e a mudança tem sido na minha opinião muito positiva. Após um período de 2-3 semanas, a produtividade das empresas voltou ao que era (ou diria mesmo que aumentou). Urge, portanto, fazer a questão, não será possível daqui para a frente oferecer aos colaboradores condições de trabalho mais flexíveis? Penso que falo por todos quando digo que o tempo que se demora de casa-trabalho e de trabalho-casa raramente é algo que nos torne felizes. Para certas pessoas é tempo que utilizam por exemplo para pensar, para ler ou para escrever, mas é algo que podem continuar a fazer no conforto do seu lar mesmo que trabalhem remotamente. Logicamente que apenas algumas atividades permitem a execução de trabalho remoto, mas considero que se conseguíssemos que uma grande percentagem de todas as pessoas que têm possibilidade de trabalhar a partir de casa o fizesse, iríamos todos beneficiar. Começando pela entidade empregadora, que não necessita de espaços físicos tão grandes, permitindo-lhe ainda ter poupanças energéticas e também de ajudas de custo com deslocações. Continuando para o colaborador que ganha horas por dia ao não ter que se deslocar para o trabalho, possibilitando passar mais tempo com a família, fazer mais desporto ou ter mais horas para os seus hobbies. Por fim, o principal ganhador será o nosso planeta, todos nós somos responsáveis por reduzir emissões de CO2, portanto imaginem se reduzíssemos drasticamente as deslocações em automóveis e aviões? Talvez o nosso planeta começasse novamente a respirar.

 

Trabalho remoto

 

Não estou a afirmar que devemos avançar a 100% para modelos de trabalho remotos, até porque continua a ser muito importante existir interação entre as pessoas. Tudo se torna mais fácil depois de estarmos presencialmente e comunicarmos cara a cara com alguém. As videochamadas são igualmente boas, mas não é a mesma coisa. É justamente por esse motivo que mesmo em projetos remotos, se recomenda que a equipa esteja presencialmente reunida, pelo menos no seu kick-off. Dessa forma todas as comunicações futuras serão menos difíceis. Podemos então concluir que o melhor de dois mundos seria mantermos uma abordagem híbrida ao teletrabalho, reservando alguns dias do mês para contactos cara a cara (sempre que seja justificável).

E no caso de equipas onde sejam utilizadas metodologias ágeis? Um dos princípios básicos é que a equipa esteja colocada no mesmo espaço físico de forma a aumentar a comunicação osmótica, ou seja, a comunicação que passamos a acompanhar apenas por partilhar o mesmo espaço com os restantes elementos da equipa. O segredo passa por continuar a comunicar numa base regular, com a diferença que ao invés de falar cara a cara, esta comunicação ocorrerá através de videochamada. É correto afirmar que não será o mesmo, por videochamada é muito difícil apercebermo-nos da linguagem não verbal sempre que falamos com outra pessoa, mas continua a ser a melhor alternativa. Por ordem de prioridade, sempre que comunicas de forma remota deverias preferir videochamadas, seguido de telefone e por último o email. Através de email a mensagem pode ser facilmente mal interpretada. O telefone acrescenta outra camada de compreensão, como por exemplo o tom de voz. Finalmente a videochamada já nos permite observar e interpretar expressões. Acima disso, apenas a comunicação presencial nos permite ter uma conversa onde podemos usar todos os nossos sentidos.

 

A existência de inúmeros softwares de acompanhamento de tarefas e de projetos também nos permite de uma forma muito célere entender que tarefas têm os restantes elementos da equipa. A gestão desse tipo de atividades está há vários anos mais simples que nunca. A banalização de cloud based applications permite-nos controlar o nosso fluxo de trabalho onde quer que estejamos, utilizando por exemplo um telemóvel. Nunca como agora foi tão fácil colaborar. Pode-se editar documentos e apresentações em simultâneo enquanto se comunica via videochamada, pode-se falar com pessoas do outro lado do mundo num piscar de olhos e pode-se trabalhar no conforto da nossa casa ou enquanto bebemos um refresco numa esplanada à beira-mar. Como podem constatar, as barreiras que impusemos relativamente ao trabalho remoto nada mais são que barreiras invisíveis que não existem em lado nenhum a não ser nas nossas cabeças. Estará o mundo preparado para mudar e para evoluir? O trabalho a partir de casa será uma nova realidade no nosso futuro ou rapidamente vamos voltar aos velhos hábitos? Não tenho a resposta, só o tempo o dirá, todos temos a ganhar com esta mudança de mentalidade.

 

Aguardaremos pelo que aí vem.

 

10
Mai20

O mundo por um ecrã

Luís Rito

Século XXI, a tecnologia abunda, para qualquer lado que olhemos lá está ela a espreitar. Temos computadores, cada vez mais portáteis e potentes, smartphones que têm um poder de processamento que faria os computadores de há uns anos se esconderem de vergonha, temos a internet cada vez mais presente na vida de todos, temos smartwatches que não deixam uma notificação nos escapar e temos acesso a toda a informação do mundo instantaneamente no ecrã do nosso telemóvel.

 

Toda esta informação nos transforma em pessoas mais informadas, sempre que temos uma dúvida basta-nos procurar pela resposta, está sempre à distância de poucos segundos. Temos acesso a formação que antigamente não teríamos, podemos comunicar e ver pessoas que gostamos e que estão fisicamente longe, podemos fazer compras sem sair de casa, podemos trabalhar, podemos ver filmes e séries e podemos enfrentar a pandemia que atualmente vivemos de uma forma menos monótona. Com tudo o que a tecnologia traz de bom, porque acho que cada vez mais estamos desligados do nosso mundo, o mundo real?

 

O ser humano não está preparado para a quantidade de estímulos a que é sujeito hoje em dia. A dopamina é uma hormona libertada pelo nosso organismo que nos leva a repetir comportamentos que nos dão prazer. É conhecida pela hormona da felicidade, portanto é normal veres os seus níveis aumentar sempre que acabas de fazer exercício físico ou sempre que comes um belo chocolate. A dopamina é o que faz a grande maioria das pessoas escolher comer um chocolate ao invés de brócolos. Se te dessem duas opções, uma barra de chocolate ou um prato cheio de brócolos, imediatamente o teu cérebro associaria o chocolate a prazer, e sempre que o comesses os teus níveis de dopamina iriam aumentar, resultando numa sensação de bem-estar temporária. Provavelmente após uma hora poderias sentir-te culpado por comer chocolate quando estás de dieta, mas no momento da decisão só conseguimos pensar no quanto vamos apreciar o chocolate.

 

Onde quero chegar com tudo isto? Atualmente tens disponível uma fonte infinita de gratificação instantânea! São as notificações do facebook, do instagram, são as notícias que teimam em cair no teu ecrã a cada 5 minutos, são as mensagens de WhatsApp, são os milhentos jogos disponíveis...uff...o potencial de interrupções a que és sujeito todos os dias é interminável. Para muitas pessoas a primeira e última coisa que veem todos os dias é o ecrã do telemóvel. Já presenciei famílias inteiras a jantar, e onde não existe qualquer tipo de comunicação verbal, cada um dos elementos está no seu tablet ou telemóvel. Já vi um neto a almoçar com uma avó, onde durante todo o almoço o neto não descolou os olhos do ecrã do tablet, deixando a sua avó praticamente a comer sozinha. Já observei nos transportes públicos que antes se conversava e agora olha-se para o telemóvel. Já vivi concertos onde centenas de pessoas ao invés de aproveitarem o momento com todos os seus sentidos, estão a filmar, e portanto, a ver o espetáculo através do telemóvel.

 

O Pensador

 

As crianças hoje em dia já não sabem o que significa a palavra aborrecimento. Desde o momento em que acordam até ao momento em que se deitam são bombardeadas com estímulos que fazem os seus níveis de dopamina serem cada vez mais altos. E a dopamina é altamente viciante, quase como uma droga. É por isso que se lhes damos a escolher ler um livro ou jogar no telemóvel a escolha é óbvia. É semelhante ao caso do chocolate e dos brócolos. É por isso que algumas crianças já não sabem pensar pela sua cabeça, sempre que lhes surge um problema pode acontecer uma de duas coisas, ou desistem porque é algo difícil, ou tentam obter a resposta na internet. Existe pouco espaço para utilizar uma coisa fantástica que temos e que se chama cérebro. Até nós adultos. Antes existia espaço para argumentação sobre determinado tema, as pessoas falavam e explicavam o seu ponto de vista. Agora vamos ao Google, encontramos a resposta e...fim da argumentação. Tudo é instantâneo, estamos habituados a ter resposta para todas as nossas perguntas, um filme de 2m passou a ser uma eternidade, conseguimos estar horas a ver vídeos aleatórios no YouTube, consumimos informação em larga escala.

 

É por isso que apaguei as aplicações do facebook e instagram do meu telemóvel, e é por isso que tento não gastar demasiado tempo agarrado a ele. Acredito que a chave para fazermos coisas difíceis é deixarmos de consumir tanta informação todos os dias e fazer uma limpeza, quase uma desintoxicação de estímulos. Temos que abraçar o mundo real, viver com todos os nossos sentidos bem ativos. Sempre que olhas para uma paisagem, olha realmente, sente o vento, o cheiro, observa a 100%, desacelera, relaxa e fica só com os teus pensamentos. Esquece a selfie, a fotografia panorâmica, o post no facebook, apenas vive o momento com todos os teus sentidos. Desativa as notificações do teu telemóvel, como é que esperas ser produtivo se recebes uma mensagem de 2m em 2m? É impossível, o teu cérebro sabe que tem algo novo para ver e vai desfocar a tua atenção das atividades importantes que queres realmente realizar.

 

Se te desligares de todas essas atividades altamente viciantes, aos poucos os teus níveis de dopamina vão baixar, vais-te sentir aborrecido, mas garanto que vais apreciar fazer as tarefas difíceis que teimam em não ser concluídas. É muito provável que a tua capacidade de foco e de concentração também aumente. Se não tiveres a tentação de pegar no teu telemóvel, ou de ver coisas que não te levam a lado nenhum, tens mais possibilidade de conseguires perseguir os teus objetivos e teres mais sucesso. Ler livros vai passar a ser bem mais interessante, e ler livros é uma garantia para te tornares mais sábio e aumentares os teus níveis de concentração. Abraça o aborrecimento, as atividades que agora achas enfadonhas vão passar a ser as que te dão dopamina, porque entre não fazer nada e ler um livro ou escrever, vamos sempre preferir fazer algo de útil. Faz uma desintoxicação de informação irrelevante, e por um dia desliga a TV, o telemóvel e o computador, depois observa os resultados.

 

Acima de tudo reserva tempo para pensar. Vive!

 

 

26
Mar20

Vive mais com menos

Luís Rito

Olá!

 

Antes de avançarmos mais, quero deixar o meu agradecimento a todas as pessoas da nossa sociedade que apesar dos riscos de contrairem o COVID-19, vão trabalhar todos os dias para que tudo continue dentro da maior normalidade possível. A realidade é que apesar de muitos estarem confinados há vários dias ao seu lar, outros tantos trabalham diariamente para que não nos falte nada. E não são apenas os médicos, falo também de farmacêuticos, de todo o pessoal necessário para manter um hospital aberto, motoristas de entregas de mercadorias & encomendas, toda a supply chain do retalho, limpezas, recolha de lixo, transportes públicos e todos aqueles que não referi e que continuam a fazer-nos chegar os serviços essenciais para o nosso dia-a-dia.

 

Dito isto, eu tenho a sorte de poder exercer as minhas funções através do conforto da minha casa, sendo que tirei voluntariamente alguns dias de férias durante este período de estado de emergência nacional. Muitos diriam que um período de férias numa altura em que não podes sair de casa é um autêntico desperdício de dias em que poderias estar de papo para o ar numa praia lá mais para o Verão. Eu vejo de outra forma, apesar de ter em casa um míudo de 10 anos, consigo utilizar este tempo para inúmeras coisas que não consigo no dia-a-dia normal. Uma das atividades ao qual me dediquei foi a tentar pensar e agir de uma forma mais minimalista. O minimalismo é uma forma de estar na vida, que favorece as pequenas coisas em detrimento de uma vida de consumos desenfreados e perseguição de um modelo de sucesso que foi crescendo na nossa sociedade. O objetivo é livrares-te de tudo o que está a mais na tua vida e focares-te apenas no que interessa. Existe um documentário muito bom sobre o tema no Netflix. Este documentário tem como principais protagonistas Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, fundadores deste movimento. Podes dar uma vista de olhos no documentário aqui, e também ver o site deles para teres uma ideia do que se trata.

 

Dito isto, deixo algumas questões no ar. Porque temos que consumir tanto? Porque queremos sempre a casa enorme, o carro potente e topo de gama, o telemóvel que acabou de sair ou 30 pares de sapatos e 100 peças de roupa? Existe uma pressão enorme na nossa sociedade para consumir. Somos bombardeados com publicidade a toda a hora, fazem-nos acreditar que necessitamos de certos produtos para pertencermos a uma certa classe social. Desde pequenos que nos dizem que ter sucesso é ter um emprego com um salário milionário, mesmo que isso signifique trabalhar 12h a 16h dia, mesmo que isso signifique não darmos atenção à nossa família e mesmo que isso signifique abdicar da nossa felicidade. O sucesso na nossa vida deveria ser medido em felicidade e não em euros! Contudo ser minimalista não é viver apenas com uma t-shirt e morar numa casa vazia sem móveis. Ser minimalista é ser muito exigente com aquilo que trazemos para a nossa vida, e restringirmo-nos ao que consideramos fundamental e que acrescenta valor. Todos os objetos que possuis e que não tenham um objetivo e um propósito claro devem ser eliminados, é essa a lógica de tudo isto. Tudo o que é supérfluo vai embora.

 

Minimalismo

 

Munido desta forma de ver as coisas, livrei-me de tudo o que tinha que estava a mais. Tudo aquilo que considero que não acrescenta valor nem iria acrescentar no futuro foi removido. Ter menos coisas é libertador. Pessoalmente não gosto de ver casas com amontoados de "tralha", portanto livrar-me de uma série de coisas permitiu-me ter mais espaço dentro da minha própria casa. É uma loucura as pessoas quererem casas maiores para arrumarem cada vez mais coisas. Alguns desses mesmos objetos não são utilizados há anos, e ainda assim teimamos em querer guardá-los. Sugiro que os ofereçam a quem precisa, nomeadamente casas de apoio a crianças desfavorecidas. O ter pouco também significa que vais gastar menos dinheiro em coisas que não precisas, o que por arrasto te vai fazer poupar mais e aumentar o teu pé de meia. Esse mesmo pé de meia pode ser a tua salvação em situações como a que vivemos agora, e onde existe uma real hipótese da economia se vir a ressentir.

 

No meu caso, sempre adorei livros, portanto considero fundamental rodear-me de livros que sei que vou tornar a ler no futuro, nem que seja para ir procurar uma referência ou uma frase. Apesar de gostar tanto de livros, livrei-me de uma grande quantidade deles que sabia que nunca mais iria tornar a tocar. A lógica é esta, para mim são livros que me trazem valor, mas para ti podem ser CD´s de música ou coleções de bonecos da matutano. Mantêm aquilo que te faz feliz e que adoras, ou que tenha uma função que consideres útil (por exemplo uma máquina de café) e desfaz-te do resto. Por último, consumir menos também nos torna mais sustentáveis. Todos nós temos que ajudar nesta luta, o nosso planeta não vai aguentar este ritmo de consumo desenfreado para sempre. Existe sempre um preço que vamos ter que pagar no futuro. É por isso que te aconselho a fazer o mesmo, livra-te do que não precisas, livra-te de tudo o que não está a acrescentar valor à tua vida. Sê muito rigoroso com aquilo que compras e que trazes para dentro da tua casa, e acima de tudo escolhe a felicidade acima dos bens materiais, que apenas te trazem felicidade no momento em que os compras. 

 

Por hoje é tudo, espero que tenhas gostado. Até à próxima :)

 

 

13
Mar20

Ficar de quarentena não significa parar

Luís Rito

Olá!

 

Encontramo-nos a braços com uma situação delicada, não há como negá-lo. Desde há umas semanas que o corona vírus virou o mundo de muitos de nós completamente do avesso. Eventos estão a ser cancelados em quase toda a sua totalidade, empresas mandam os seus colaboradores trabalhar a partir de casa e tem ocorrido uma corrida aos supermercados de forma louca. Antes de abordar o tema de como podemos ver a quarentena com outros olhos, gostava de deixar a minha opinião sobre os eventos que têm ocorrido nos últimos dias.

 

Por favor, mentalizem-se que o corona vírus não é o fim do mundo. Não estou com isto a dizer que não é grave, mas não há necessidade de correr para os supermercados e levar todos os enlatados ou rolos de papel higiénico. Esses bens têm que chegar para todos, e se a grande maioria levar comida que lhes dá para 6 meses não vai chegar para as necessidades de toda a população. Reparem que a situação na China começa a estabilizar, o que me leva a acreditar que em Portugal vamos ter uma fase em que a propagação do vírus poderá piorar mas que tenderá a estabilizar também. Se todos cumprirmos com as nossas obrigações o impacto poderá ser baixo, e quando falo em obrigações falo em cumprir com as normas básicas de higiene e quarentena. É estúpido na situação em que estamos organizarem-se festas a celebrar o corona vírus! Lembrem-se que podemos não estar no grupo de risco, mas todos somos potenciais transmissores da doença, e podemos infetar os nossos entes mais queridos. Portanto, quando as escolas fecharem na próxima semana tentem não deixar as crianças com os avós, já que esses apresentam um risco muito maior de não resistir ao vírus.

 


Agora que já desabafei um pouco, vamos falar de um tema bem mais interessante. Se estás a ver o copo meio vazio, digo-te já que podes encarar a quarentena como uma oportunidade. Sim, nem tudo é mau, ao trabalhares de casa vais ter mais tempo disponível (assumindo que gastas diariamente algum tempo em deslocações) no teu dia para cultivares bons hábitos. O não deveres sair de casa a toda a hora também te vai trazer mais tempo, tenta apenas não o utilizar todo a ver TV ou Netflix.

 

quarentine


1. Trabalha na tua criatividade
Uma excelente técnica passa pela escrita de 10 ideias sobre um determinado tema todos os dias. Podem ser coisas tão simples como "10 ideias de sítios onde gostaria de passar férias" ou "10 ideias de como posso ganhar tempo no meu dia-a-dia". Aproveita que estás em casa e que tens mais tempo disponível pela manhã para fazer atividades como meditação ou trabalhar a tua veia criativa. Se tens curiosidade sobre como podes utilizar a técnica de escrever 10 ideias por dia para melhorar a tua criatividade dá uma vista de olhos neste artigo.

 

2. Aproveita para pensares na tua carreira
Define um plano de desenvolvimento para ti mesmo! Onde te vês em 3 ou 5 anos? O que deves realizar para lá chegar? Pensa muito bem em formações ou certificações que necessitas, que experiência precisas de aquirir, a rede de contactos que vais necessitar e que projetos tens que completar. Utiliza o tempo extra para pensar, é normal no nosso dia-a-dia tendermos a andar sempre a 1000% e não o fazermos. Para mais detalhe sobre este tema vê este artigo.

 

3. Lê aquele livro que teima em ficar na mesa de cabeceira há vários meses
Aproveita para pôr a leitura em dia, ler vai manter a tua mente ocupada e criativa :). Se já esgotaste o stock de livros para ler compra através da Amazon para teres acesso instantâneo a muito material de leitura.

 

4. Combate a preguiça
Ficar fechado em casa é meio caminho andado para entrares em modo "Garfield" (comer e dormir). Deves combater a preguiça com todas as armas que tens! Para isso, sempre que queiras ser produtivo começa com tarefas fáceis e pequenas para combateres a inércia, elimina tudo o que são distrações, como a TV ou o telemóvel e dá pequenas recompensas a ti mesmo quando consigas atingir um objetivo. Por exemplo, por cada 50m de trabalho faz uma pausa de 10m. Para saberes mais, vê este artigo.

 

5. Aproveita para criar bons hábitos
Boa alimentação e muito descanso é sempre uma excelente aposta. Tenta comer alimentos saudáveis, ricos em vitaminas, minerais e fibras. Esquece alimentos processados e carregados de açucar, investe em muitos vegetais e frutas,  já que são ricos em antioxidantes e vitaminas. Não te esqueças de te manter hidratado, continua a beber regularmente água ou chá. Aproveita também para pores o descanso em dia. No nosso local de trabalho por vezes não é fácil fazer uma pequena sesta a meio do dia, mas em casa é perfeitamente possível. Almoça em 30m e depois fecha os olhos por 20m, vais-te sentir como novo. Tenta também manter uma rotina de horas de levantar e deitar.

 

6. Treina em casa
Lá por estares em casa não significa que fiques com o rabo sentado todo o dia. Tenta fazer algum exercício. Se tens uma garagem ou uma divisão extra então aproveita-a para te poderes mexer. Se tiveres uma passadeira ou bicicleta ainda melhor. Uma boa técnica é ligares o YouTube e pesquisares por aulas de fitness como por exemplo "Tabata". Depois é tentares seguir o ritmo dos instrutores! Se gostas de musculação e tens espaço então podes montar um mini ginásio. Vê este artigo onde te falo de como montar um mini ginásio sem que isso te leve à falência :).

 

E é tudo, uma quarentena não tem que ser o fim do mundo, aproveita-a da melhor maneira e lembra-te que as situações menos boas servem para nos ir tornando cada vez mais fortes.

 

Até à próxima